Brasileiros não suportam tensões. Mesmo quando as incertezas dominam o horizonte, preferimos acreditar que vivemos no melhor dos mundos. Ao saudar alguém não lhe oferecemos outra alternativa senão o compulsório “ Tudo bem? ”. Ou ele desfia seu rol de aflições — e isso exige tempo e esforço — ou resigna-se com um lacônico “ Tudo ”.

Bordão, divisa nacional, manual de drible, proposta de vida: “ tudo bem? ” é a solução mágica para disfarçar crises enrustidas, contornar premências e enfiar a sujeira debaixo do tapete. O mais recente auto-engano foi produzido pela greve dos caminhoneiros autônomos que de surpresa conseguiu a façanha de parar S. Paulo. Literalmente.

O protesto contra as restrições impostas pela prefeitura ao tráfego dos grandes caminhões nas vias estratégicas em horários de pico converteu-se numa das paralisações mais engenhosas e mais bem sucedidas dos últimos tempos. A locomotiva do país foi obrigada a capitular diante da organização dos trabalhadores-empresários, responsáveis pela distribuição total de combustíveis. A megalópolis empacou, primeiro por um engarrafamento colossal, em seguida pelo desabastecimento de combustíveis nos postos de venda.

Greve ou lock-out — a designação é irrelevante — o que restou do bloqueio quatro dias depois foi a constatação da total vulnerabilidade do sistema venoso no coração da sexta maior economia mundial. O colapso não foi apenas logístico, foi institucional e político. Escancarou a precariedade dos sistemas de segurança e defesa civil da maior cidade do país.

Uma prefeitura acéfala desde quando seu burgomestre, Gilberto Kassab, lançou-se espetacularmente no cenário político nacional, mostrou-se totalmente despreparada para enfrentar os efeitos perversos de um plano destinado prioritariamente à melhora da circulação de automóveis. Para conquistar votos na classe média motorizada tenta-se esvaziar as ruas e ninguém percebe que está enxugando gelo – dentro de alguns meses as vias desobstruídas estarão novamente obstruídas pelos carros novos que saem das linhas de montagem.

Tudo bem: o transporte público é problema em todos os grandes centros urbanos do mundo e não seremos os primeiros a resolvê-lo. Tudo mal: o problema do transporte público pode ser resolvido quando se tem um máster-plan, um plano diretor a ser implementado progressivamente. Com improvisações em vésperas de eleições não se chega a lugar algum. A não ser o caos. Absorvidas pelas miragens do pré-sal, tanto a Petrobrás como a Agência Nacional de Petróleo ( que também cuida dos biocombustíveis ), não se preocuparam em montar um sistema permanente de distribuição apto a enfrentar emergências, convulsões e catástrofes.

Os caminhoneiros autônomos não são os vilões, o sistema ao qual servem é arcaico, não muito diferente das guildas medievais. A gigantesca operação de abastecer de combustível uma das maiores cidades do mundo não pode ser entregue a autônomos, cooperativas seriam operacionalmente mais produtivas e socialmente mais avançadas. Autônomos não têm condições de resistir às pressões de interesses escusos. Basta lembrar as máfias que tomaram conta dos “ sindicatos ” de caminhoneiros autônomos nos EUA ( os famosos “ teamsters ” ).

Todos estão super-felizes com as notícias de que o abastecimento deve regularizar-se até a próxima segunda-feira. Ninguém tem coragem de pensar no tal “ Day After ”. Porque onde impera o “ tudo bem ” o ceticismo é impatriótico e o heróico desmancha-prazeres corre o risco de ser linchado.