Eu vi Coutinho jogar.

Foi um extraclasse. Jogou muito, ao lado de outros grandes jogadores. Com Pelé formou, no Santos e na seleção, uma dupla de área espetacular, de apavorar qualquer zaga.

Hoje jogaria também. E com mais facilidade.

Como Coutinho era o centroavante por excelência, colocava-se entre o meio de campo e a zaga adversários, mas quase sempre perto ou já dentro da área. Nessa posição esperava por seu Grandíssimo companheiro Pelé, tocando de volta as bolas que recebia ou virando-se em direção ao gol contrário ou simplesmente ” partindo para dentro “, já que lhe era natural colocar seu corpo já posicionado, de frente, para a área do adversário.

Por vezes, revezava-se com Pelé e vinha mais de trás, carregando a bola presa no pé, com dribles curtos e visão maior do campo à sua frente. Nessas situações acontecia, também, a ” tabelinha ” entre ambos. E era espetacular. Cabeças erguidas, toques de primeira, em velocidade, na frente e dentro da área, pegando os beques de costas para o gol, correndo para trás, em aflitas tentativas frustradas de virarem-se e combater aquela dupla infernal.

E com um detalhe. Negros, eram parecidos. Cortavam o cabelo com o mesmo penteado. Não foram poucos os que os confundiram, pois eram, os dois, de muita ” bola ” e de muita classe.

Jogaria com mais facilidade, de fato. Não só porque os jogadores de hoje são bem piores, duros, tatuados e otários. Mas, principalmente, pela disposição tática dos times    ” modernos “. Muita gente na defesa e no meio de campo, mas sempre em linha. Reparem: se um é driblado – raramente ocorre, pois o drible morreu; daí as linhas   burras – abre-se enorme espaço. E com Coutinho o drible era fácil, íntimo, imprevisível e ” para frente “. Pense: Coutinho dribla o Aírton do Fluminense e fica olhando para o Digão e o Mateus Ferraz, com Pelé ao seu lado. Vai ser gol ?

A hipotética situação não seria um ” privilégio ” do Fluminense. Aconteceria com o Vasco, Flamengo, Palmeiras … Haja tatuagem e dedo apontado para o céu.

Um tempo que não volta mais. Um futebol que não mais existe, substituído por outro, sem graça, feroz, televisado e endinheirado, infestado pela gentalha que assola nossos tempos. Dentro e fora de campo.